terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Summer 68



Lembrei de tudo dia desses.
Suas pernas longas e seus dedos compridos envolvendo sorrisos de uma menina. A maneira como o seu cabelo caía sobre a testa, tuas arquiteturas de quem quer ganhar o mundo e o medo de perder o que ainda não tinha.
Mais uma vez, minha jacketa roxa encostava na sua de couro. Minhas mãos umedecidas de ansiedade, calorozas de toque e arrepio, alcançavam o zíper que abriria o teu peito. A física dos dois corpos num espaço pequeno e tumultuado de pessoas. Estação Clínicas, às 6 horas da tarde de Julho. O metrô corria e eram teus braços que me seguravam para que eu não caísse. E aquele olhar. Aquele rápido instante entre eu e você e todo o mundo em exposições contemporâneas da cidade. Luzes de estações dispersas e a minha cintura com ciúme de você. Da sua risada quente e tranquila de quem queria arranjar um jeito de me acolher.
Estava tudo em movimento, no movimento do metrô que me apertava contra você.


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Gabriele Fidalgo

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Clarear

O prato do dia não é uma dúzia de reclamações, muito menos desaforo. Não há queixas e nem arrependimento. Nada para esquecer, reescrever, ajeitar. Teu mau humor nem tange a minha pele, teu medo me mantém firme nas minhas falas sobre coragem e respeito, me assumo, cada vez mais, passível a falhas e apaixonada pelo instante. Nada de acusações, por hoje, basta. Sem amores impossíveis e mal destinados, deixe-os com suas dores para lá. Sem ardor. Apenas traga leveza e uma tarde doce, no bolso. Não vou fumar, nem me embriagar de qualquer lacuna da vida, pelo menos por hoje. Mande fazer poesia para o jantar e ponha uma mesa de tranquilidade. Sim, tranquilidade e não inércia. Sem agonia, verso preso, peito inchado. Sem medo. Me dê um prato, vou engolir o mundo. Meus braços estão abertos para o que vem por ai, abri a porta do infinito e

Hoje, meu primeiro nome é sorriso.

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Clara Arôxa