segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Inconclusiva[mente]




Você pediu. Ficou sentado nessa cadeira, por horas, a me desafiar com esses olhos de ressaca. Mal sabia que desafio é meu primeiro nome, o da frente do primeiro que nem é o meu, é um apelido. Um apelido para facilitar na hora de responder: qual teu nome mesmo? Eu sei que você imaginava, mas não sabia ao certo. Nada se sabe ao certo, que frase imbecil que saiu da tua boca. Você deveria ficar calado durante a minha fala compulsiva e me deixar inventar quantas mentiras fossem necessárias para meu personagem. É que você, ultimamente, só fala merda e nem percebe que eu não existo. Aliás, existo, mas não desse jeito, entende? Deixa eu te dizer uma coisa: eu gosto de machucar e gosto de sempre usar um eu nas frases pra mostrar o tamanho da minha individualidade. Meu umbigo é lindo, camarada. Isso te soa ridículo? Não me importo, de verdade. Outra coisa, há tempos venho desviando aquelas cobranças que pairam no meio do peito. Esquerda, direita, frente, trás, completamente desordenado e com tremenda urgência. O dia de explodir tudo se aproxima, sugiro que você refaça o caminho de casa e saia dessa porra dessa cadeira. Sim, eu vou continuar dando voltas no quarto com essa garrafa que eu não tomo um gole porque eu quero. Problema meu se alguém subir e me ver nesses trajes, pelo menos minha calcinha é bonita e foi cara. Comprei com seu dinheiro. Cala a boca, me deixa falar. Eu não sei o que eu quero falar, você não tem noção do tamanho do buraco aberto aqui dentro, o sangue não estanca. Que porra de culpa, quem mais se acusa aqui é você. É difícil entender que eu tenho um buraco gigante que san-gra? Dói escutar que eu sou demasiadamente humana e fria o suficiente para te descrever o ardor do meu corte? Sim, eu posso te dizer onde lateja, a profundidade e quantos pontos preciso levar enquanto observo meu dedo borbulhar de sangue, sorrindo. Tá, eu sei que estou me perdendo e você já está criando asco de mim. Ótimo, algum sentimento real além daquelas frases feitas sobre meu sorriso e sobre minha doçura. Preciso te dizer o quanto me agonia frases feitas, olhares meigos e paixão alheia. Não conseguir sentir e ter que compreender sabe-se lá porque é um veneno. Me deixa ser dramática e egoísta. Me deixa.Você não vai sair dessa cadeira, vai permanecer imerso, para sempre, nessa almofada dura? Eu preciso dizer mais o que para que você faça algo diferente de me olhar? Preciso te dizer que tudo está uma merda? Pronto, tudo está uma merda e eu não suporto mais. Não suporto mais viver aqui. Isso tudo é mentira. Isso tudo é desespero. Isso tudo é falta.Não toca em mim, sai. Para de achar que é algo da tua ossada, cai na real. Já te falei do meu umbigo? Sim, vou beber até o fim, até a última gota cair no tapete, sabecomoé? Chega, para de me olhar, para de tentar entender. Você nunca lê até o final mesmo.Não quer sair da cadeira não? Então vai com ela.Até.
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Clara Arôxa

4 comentários:

  1. haha Assumir a individualidade para mostrar o tamanho da [in]tensidade é que é lindo.


    Arrasa, Clara!

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  2. lindo texto, parabens pelo blog.
    Gostei daqui.
    Maurizio

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  3. adorei o texto, aliás adorei o blog (:

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